amores expresos, blog da CECÍLIA

Monday, May 28, 2007

Berlim, festa do Dia do Trabalho



Foto de Tadeu Jungle.

Sunday, May 27, 2007

Perigos de Berlim

No Rio de Janeiro vivemos em guerra, mas Berlim também tem seus perigos urbanos. Pacata na fachada, pode ser uma selva para os incautos.

No show de uma banda de alguma parte dos Bálcãs, num lugar chamado Mudd Club, no Mitte, fui abordada por um guri que não aparentava idade para estar em boate (o que em Berlim não faz a menor diferença pro pessoal dos clubes que suja a mão da gente na entrada com o carimbo). Ele me pediu um cigarro. Eu estava filmando o show, então olhei pro lado aonde o moleque tinha se materializado e continuei segurando a câmera na direção do palco, sem dar atenção. Mas aí o moleque começou a dançar, dançar mesmo.

A coreografia era bem próxima da coisa que os caras que imitam Michael Jackson na Cinelândia poderiam fazer. Ele era muito magro e usava roupas mal-ajustadas ao corpo. A camisa apertada demais, a calça sobrando em torno da cintura, amarrada por um cinto que imitava couro. O tipo de roupas passadas de primo pra primo, de geração pra geração. "I from Damascos"!, apresentou-se.

Enquanto a enorme banda se apertava no palco, destruindo o silêncio de Berlim com um time de metais caótico, o espetáculo paralelo me hipnotizava. Por defeito de fabricação, eu me deixo fascinar por dançarinos evidentemente muito ruins. O menino de Damasco era péssimo, e sacudia-se por um cigarro e uns trocados dentro do clube "lamma".

Porém não pediu dinheiro. Ainda se sacudindo, acendeu o cigarro e girou, trôpego, até sumir de vista no meio da platéia. Foi aí que me dei conta de que minha bolsa (atravessada no corpo, virada para o lado do palco) tinha sido aberta. E lá no fundo dela minha carteira também se escancarava vazia pra mim. Eu tinha deixado tudo fechadinho e, na carteira, o dinheiro pra voltar pra casa depois do show dos caras dos Bálcãs. Não mais. Enquanto o Michael Jackson de Damasco rodopiava, um comparsa dele metia a mão na bolsa.

Como pode uma carioca ser roubada em Berlim? A explicação é simples: como moradora do Rio de Janeiro, há muito perdi meu treinamento para lidar com furtos. De uns dez anos pra cá os cariocas intensificaram o aprendizado de táticas de defesa em guerrilha civil - rastejar, camuflar, construir abrigos anti-bomba -, interrompendo os treinamentos contra furtos simples. Tornou-se mais comum a violência ostensiva; batedores-de-carteira, no Rio, estão em último plano e atuam bem menos que atiradores com metralhadoras, granadas, etc.

O ladrão de Damasco não foi o único perigo da selva alemã a cruzar meu caminho. A gangue de passarinhos veio em seguida, naquela mesma semana. Mais cruel e sem pudores, agiram às claras, de dia, na frente de testemunhas que nada fizeram, temendo retaliações. Eis as fotos exclusivas do ataque.

"Perdeu, playboy!"




O primeiro bandido se aproxima. Ele não é muito grande, mas tem um olhar ameaçador (percebam).




Um comparsa recebe o sinal do chefe da quadrilha e se junta à ofensiva.





Eu coloco um pouco da comida num prato separado, tentando distraí-los. Mas dois fiapos de macarrão não são o suficiente para esses tough guys...




... e logo eles tornam a atacar o prato principal com tudo. As pessoas que também almoçam no Hackescher Markt (e, curiosamente, não têm seus pratos atacados) observam sem interferir. A coisa toda dura cerca de meia-hora, vejo a quantidade de macarrão diminuindo. Eles comem no prato mesmo ou dão rasantes, pescando um fio de massa com o bico e voando pra longe com ele.


Decido que é vergonha demais tentar roubar de volta o prato dos passarinhos, já que não adianta balançar as mãos em torno da mesa porque um deles sempre fura o bloqueio. Seria patético. Entrego os pontos e o prato inteiro a eles.




"Passa o sal?"




Não fiquei para ver como terminou. Temi pela vida deles, pois eu já tinha despejado minha ração diária de pimenta no macarrão. Eles não pareciam se importar. Mas duvido que depois tenham conseguido levantar vôo. E que a Sociedade Protetora dos Animais não venha atrás de mim por causa disso. Passarinho de Berlim é um bicho muito abusado. E eles estavam em maior número.

Thursday, May 24, 2007

IN RUHE LIEGT DIE KRAFT

ditado alemão. alguma coisa aprendi com eles.

Monday, May 14, 2007

O alemão que falava demais

Mais um causo contado antes de fazer as malas. Os outros eu vou guardar.

George (ou Jörg, é o que compreendo quando ele me diz seu nome) me aborda quando estou sentada numa mureta da Kaiser-Wilhelm-Gedächtniskirche, Igreja-Memorial do Kaiser Wilhelm. Dela resta de pé uma torre, o que sobrou depois da II Guerra Mundial. É mantida assim mesmo, semi-destruída, uma das coisas caqueradas de Berlim que acho mais bonitas.

Berlim tem muitas coisas caqueradas, em processo de reconstrução, restauração, renascimento, recuperação, poeira, guindastes, pás, homens de macacão azul e picaretas nas mãos. A Gedächtniskirche está de pé com o belo aspecto de quem caindo aos pedaços, símbolo da recriação geral da cidade. É um postal de destruição tranqüilo, úmido, tem a calma da vida eterna mesmo com a turistada em volta. Depois das seis os turistas desaparecem, porque a igreja fecha, e recosto nos detritos de guerra dela.

Jörg começa a falar comigo em alemão. Ele deve ter uns 40 anos, é alto, usa uma armação de óculos fabricada pela última vez na década de 70, e faz algumas pausas em seu discurso para apontar alguma coisa na parede da igreja. Penso que ele pode estar tentando me vender uma relíquia de guerra. No Rio de Janeiro, dizem, já houve quem vendesse o Corcovado. Isso foi há muitas décadas, mas vai que Jörg pensa que eu sou otária?

- Aí, quer comprar esse buraco de bala? Autêntico da II Guerra Mundial, baratinho só na minha mão.

Ele continua a falar, me fazendo virar a cabeça para trás e olhar na pilastra em que eu me recostava os buracos de bala autênticos da II Guerra Mundial. Digo pra ele, em inglês, que não falo nada em alemão, null. Sempre que digo isso a um alemão, digo em inglês, pra deixar claro que o caminho da conversa, se vai rolar uma, é o idioma do Bush, infelizmente. Digo a Jörg que sou do Brasil, Rio de Janeiro. Ele entende isso, e até comenta alguma coisa também em inglês como resposta. Em seguida, como se o diálogo anterior não tivesse ocorrido, torna a falar muito alemão.

Jörg não se preocupa com a barreira da língua. Tá nem aí pra ela com seus bigodes (ele usa bigodes, pra combinar com os óculos 70's; parece um dos Beastie Boys fantasiados em "Sabotage"). Ele continua falando, me fazendo olhar aqui e ali. Digo uma segunda, terceira vez: "sorry, sir, I can't understand".

Jörg quer me ensinar alemão à força, como o apreendem os imigrantes. Eu só quero ficar quieta na mureta da igreja caquerada, mas o homem adora esta igreja, muito mais do que eu. Pela empolgação que demonstra, parece ser ele o turista.

A essa altura eu já estou de pé ao lado de Jörg, olhando sempre na direção que sua mão aponta enquanto ele despeja toneladas de alemão nos meus ouvidos, perguntando ao final de algumas frases "Ja? Ja?". Eu faço que sim com a cabeça. Ele entende que eu não entendo. Mas quer se comunicar a qualquer custo.

Jörg me faz andar em torno da igreja com ele, apontando janelas em que podemos ver "afrescos, ja?, afrescos". Começo a ver legendas no que ele diz. "Afrescos" ele diz assim mesmo, mas o resto eu vou lendo abaixo dos bigodes, onde ficaria a boca surge uma tarja preta com a tradução em caracteres brancos.

- A construção começou em 1891 e foi até 1895, por ordem do Kaiser Wilhelm II, marcando a unificação da Prússia e em homenagem ao Kaiser Wilhelm I, que era avô do Kaiser Wilhelm II.

- Hmmm...

- Ja?

- I see...

- Vê os afrescos? Algumas coisas eles conseguiram manter exatamente como eram, outras sofreram danos irrecuperáveis. É seguro entrar, no entanto. Chega mais cedo da próxima vez, ela fecha às seis.

Arrisco uma pergunta em inglês sobre uma estrutura de ferro que segura uma parte da igreja de pé. Ele parece entender que falo daquela estrutura, pois aponta para ela, provavelmente seguindo meu olhar em vez das minhas palavras. A explicação que me dá é ininteligível para mim como tudo o mais que me diz, mas dá satisfação ver o entusiasmo de Jörg com uma das coisas caqueradas de Berlim que também me entusiasmam.

Animada com a resposta sobre a estrutura de ferro, pergunto em inglês sobre as esculturas colocadas nos fundos da torre da igreja, que certamente são de outro período que não o de sua construção. Foram feitas por volta do 2000, será? Jörg entende e me diz (em alemão, claro), "nein, fim dos 80".

Em quatro semanas de experiência germânica ainda não encontrei outro alemão tão fanático pelo próprio idioma e apaixonado por algum aspecto da cidade quanto Jörg e sua igreja. A princípio pensei que trabalhasse na lojinha de souvenir em frente, mas não. Ele ainda me levaria até a porta do metrô, o que alguém em horário de trabalho não poderia fazer.

- Você tem que voltar outro dia pra ver os afrescos.

Piscinão de Treptow, coincidências, banda eva, abominação da escravatura

Colei abaixo deste post a minha coluna da semana passada publicada pela Folha de S. Paulo, porque achei necessário explicar um pouco sobre a minha coleção antes de começar esta entrada aqui. Dito isto, vamos ao item colecionado ontem.

Eu fui parar em Treptow. Eu já tinha ido lá uma noite, num lugar esquisito em que a gente tem que tocar uma campainha pra entrar. E não é a residência de alguém. No domingo voltei a Treptow. É um antigo distrito de fronteira, que desde o século 19 tem restaurantezinhos para esse povo não-bronzeado tentar reverter essa situação à beira do Spree, e hoje ainda conta com uma piscina dentro do Rio.


Olha, é tudo mentira: não tá calor não. Os dois caras que você tá vendo nessa foto são malucos. E em geral todos acham que 10 graus é o suficiente pra se jogar na água se houver uns raios de sol entre as nuvens a cada dez minutos.

O Piscinão de Treptow é parte do império Arena, que inclui boate, barzinhos e casa de show. Tudo a caminho de lá e em torno desses estabelecimentos tem pinta de ruínas. Em Berlim quanto mais um lugar se parecer com um detrito de guerra e com a Alemanha da Deutsche Demokratische Republik, mais hypado será. As paredes estão carcomidas, os tijolos expostos, há grafites de todas as épocas pelos muros de prédios que devem estar condenados, e toda vez que passo num beco apertado entre esses prédios eu acho que vou ser soterrada por um bloco de concreto que ameaça cair desde 1989 mas decidirá fazê-lo agora, sobre a minha cabeça.

Essa área de Treptow ainda não perdeu o jeitão DDR: os prédios que não têm cara de que vão cair em cinco segundos são caixas quadradas de cimento aonde mora gente, sim, sem qualquer coisa remotamente bela nelas, a não ser certa nostalgia pela Berlim dividida que podem despertar nos mais sádicos. Há mercados de pulgas que se encontram espalhados aqui e ali em pátios cheios de capim e lama, onde não há mais nada em volta. Cato com um turco uma bíblia em Alemão caindo aos pedaços para levar de presente para alguém, olho em volta e não vejo nem um táxi, nem um ônibus passando. Carrinhos de bebê empoeirados e fileiras de araras cheias de casacos semi-destruídos e centenas de sapatos femininos das décadas de 20, 30, 40, 50, 60, 70, 80, 90 acumulam-se entre todo o tipo de tralhas que um dia compuseram o velho mundo de Berlim. Aqueles são sapatos das mulheres que sobreviveram, talvez haja ali no meio os pares de alguma judia de pés pequenos, talvez, talvez, e os sapatos masculinos são mais raros de se ver por aqui.

Tive a impressão perfeita de estar no fim do mundo, então, e agora de repente me deu uma vontade imensa de largar pelo meio este post e voltar lá, agora, onde essa sensação me bata mais forte outra vez, nesta segunda-feira em que nem os mercados de pulgas estarão estacionados por lá, no fim do mundo.

Antes que eu deixe mais uma vez um post pela metade para ir pra rua, o novo item da coleção de coincidências. Eu tinha ido a Treptow, o fim do mundo. Andava, andava e só via turcos e sapatos e casacos de gente morta e a Bíblia e carrinhos de bebê empoeirados e enferrujados, empilhados etc. Andei até chegar a uma estrada onde passavam carros, na esperança de ver algum táxi disposto a me levar até a estação de metrô de onde eu havia saído horas antes e não fazia mais idéia de como alcançar, depois de oferecer minha cabeça a prêmio sob as marquises do rocambole de concreto condenado em que havia me metido.

Andei andei andei e cheguei a algum lugar que se parecia com o recomeço da civilização. Olhei para o meu lado direito antes de atravessar e lá estavam duas pessoas que conheço. Juliana Lugão e Ana Luiza Huppe. Juliana é amiga do Antonio Prata, me entrevistou por email para a Deutsche Welle na primeira semana em que cheguei aqui. E não mora aqui, mas em Bonn. Ana Luiza saiu comigo naquela primeira semana e nunca mais nos cruzamos porque a minha vida aqui é doida. Tenho certeza de que perdi toda a cor na cara ao vê-las. Elas também levaram algum tempo para processar o encontro. Aquele era o fim do mundo e não havíamos marcado nada.

As duas estavam a caminho dos monumentos soviéticos da guerra, que ficam no centro de um parque gigantesco bem ali, onde o mundo que acabou recomeça, depois da avenida em que passam alguns carrinhos e tem até um semáforo. Para comemorar o encontro, troquei os tênis por um par de havaianas que levava na mochila e de havaianas andamos pelo parque entre pedras com frases de Stalin gravadas, cheio de lama da chuva que finalmente dava trégua, e escalamos as escadas do monumento principal, um mausoléu com a estátua de 13 metros de um soldado russo segurando uma criança.


A estátua acima não é a do soldado soviético segurando a criança no memorial da guerra em Treptow. Esta fica próxima ao Marksches Museum. Posto-a porque achamo-la esquisita. Qualquer informação sobre a mesma, escrevam-me. (Com ênclises e mesóclises). Indagados, berlinenses não souberam explicá-la.

- Cara, conheci um pai-de-santo que mora aqui em Berlim há mais de dez anos.
- Ele faz trabalho?
- Sei lá, né? Deve fazer pra ele mesmo,pra alemão num rola.

Sentamos para fumar um cigarro aos pés da estátua e dar risada dos hábitos da cidade que ainda não compreendemos, chamando a atenção dos turistas russos que levavam flores ao mausoléu. Um deles até arriscou um "Tudo bem?" ao saber que éramos brasileiras.

[Esta não costuma ser a reacão dos alemães quando digo que sou brasileira; mais sobre isso depois.]

O celular da Ana apita e ela lê em voz alta a mensagem:

"ABOMINAÇÃO DA ESCRAVATURA - CELEBRAÇÃO BOLADÃO
13 de Maio 19h ACUD (Mitte)
Brasil Funk Soul Jazz Samba
Special guest: PRETO VELHO e Renato Pantera

Entrance 0800 (flat rate)"

A mensagem era do pai-de-santo de que a Ana tinha acabado de falar.

Talvez seja preciso decodificá-la.


"Abominação". A escravidão no Brasil ou em qualquer parte do mundo foi, de fato, uma coisa abominável. Mas não existe um dia de Abominação da Escravatura, a menos que a data celebrada por brasileiros em Berlim seja uma coisa criada aqui mesmo, diferente da que temos no Brasil.

"Celebração boladão". It's beyond me to translate, mas arriscaria dizer que é algo como um "celebramos o fim da escravatura mas com ressalvas, pois sabemos que a coisa nunca acabou de fato".

"Entrance 0800". Quer dizer a mesma coisa que no Brasil, mas duvido que os alemães saibam a conotação que "0800" tem para nós: entrada grátis.

Andamos andamos e andamos em cima da lama e das flores brancas que se acumulam no chão mais que a grama, as Havaianas imundas. Na plataforma da estação de trem em Treptow (tenho certeza de que não foi a mesma na qual cheguei), as portas de um vagão se abrem e dele salta um quarto brasileiro com quem nada tínha mos marcado, e se junta a nós ao acaso. Estudante de História e Cinema que hoje faz pesquisa - com bolsa - em Berlim, ele acoplaria ao grupo, mais adiante, uma italiana e outro brasileiro. O casal, também encontrado ao acaso, vende pipas no Mauer Park, em frente a outro flohmarkt, onde passeamos entre mais carrinhos de bebês, bolsas inspiradas nas que eram usadas pelos agentes da DDR enquanto o Mauer existia - o Mauer ainda existe, "a mentalidade", me repetem - mais sapatos antigos, mais barraquinhas de salsicha e doner kebab e café, quinquilharias da Guerra Fria, casacos de soldados, broches da juventude DDR, livros por um euro, bicicletas usadas, óculos de sol para quem quase não tem sol, roupas de tirolesa, lama, pipas, bicicletas sem banco e gente se equilibrando sobre pedras com elas, criancinhas que arendem a andar de bicicleta sem rodinha aos três anos de idade (e têm prova de bicicleta no colégio pra tirar carteira de ciclista), pré-adolescentes bebendo cerveja do gargalo, adultos bebendo cerveja do gargalo, moças magérrimas bebendo cerveja do gargalo, salsicha salsicha salsicha, monumentos, punks, cachorros de punks, crianças e pipas.

Aí eu já não estava mais me surpreendendo tanto com encontros sucessivos não-planejados.

Almoçamos num tailandês bom e barato e pedi uma cerveja chinesa em solidariedade ao Prata. Descobri que, se ele gosta de cerva e prestigia por lá o produto local, deve estar sofrendo um bocado. Dali visitamos o apartamento da Ana em Prenzlauer Berg, num prédio espetacular com quintal para dar altas festinhas que nunca acontecerão porque alemães, apesar de farofeiros, só o são em parques, onde piquinicam sempre que sai um solzinho, com direito a churrasqueira e muita birita, mas não permitem festinhas na área comum dos seus prédios centenários. Segumos então para a Weinerei, um lugar com várias saletas em que as pessoas se sentam em sofás que só podem ter saído dos flohmarkts ou em torno de mesinhas redondas também com cara de coisa muito velha, as cortinas são gravatas, a música fica entre a bossa nova e o jazz e você mesmo serve seu vinho, pagando o que bem entender ao final da noite. Isto: você enche a cara e decide quanto paga no final. Aqui o sistema funciona que é uma beleza, pois as pessoas costumam pagar o justo.

Pouco depois que um cara passou entre os sofazinhos vendendo space-cake, decidimos abominar a escravatura. É um troço abominável mesmo e o evento era 0800, então por que não? Ao entrarmos num pequeno clube e ouvirmos os primeiros acordes de Banda Eva, seguidos de um discurso sobre a política de cotas para os negros nas universidades brasileiras - entabulado por pessoas que vivem em Berlim há décadas - voltamos à rua, onde nos despedimos.

Fico louca com essas coisas: esta semana furei com algumas pessoas com quem devia ter encontrado mas não consegui ir vê-las porque estava rodando a cidade e fazendo anotações. Encontrei Juliana e a Ana pelo mais doido dos acasos e ainda descobri que o Prata conhece a primeira. O dia foi rico e me lembrou que a gente nunca escreve nada sozinho. É preciso ter gente pra chuchu a nossa volta. É o "Encontro" de que falava o Hélio Pellegrino (aproveito e - alô Antonia, saudades de você) e Fernando Sabino. O "Encontro" não é o acaso, não se define por ele; o "Encontro" está "no outro".

E coincidências me deixam encasquetada.


Abominação da brancura


Agora chega a parte em que eu conto a reação dos alemães quando digo que sou brasileira.

Na volta pra casa, éramos só eu e um punk num vagão de trem. O sujeito entrou depois de mim e fez questão de se sentar no banco a minha frente. Eu sorri, como sempre tenho feito agora. Muito tarde na vida descobri que isso é melhor que amarrar a cara quando o eye contact é inevitável e a figura nos encarando nos causa certa estranheza. Ele tava meio encardido. Unhas grandes e sujas, roupas não pretas mas já cinzas de tão velhas e imundas, de quem escapou da bomba atômica, e um resto de tinta vermelha saindo do cabelo na parte do cocuruto - ou pode ser que aquele vermelho fosse sangue. Mas dava pra ver por baixo daquela imundície toda um cara bonito. Lavô tá novo, mas daria um trabalho danado. Papo vai, papo vem, ele quer saber de onde venho. Já me preparo para a "cara de abismo" que o João detectou em Tóquio. Aqui também fazem muito.

- Brasil.
- BRASIL?!
- É, Brasil. Rio de Janeiro, samba...
- Mas você é branca.

Também não é a primeira vez que ouço isso.

- Eu sou punk. Pra mim não interessa de onde as pessoas vêm. Eu sou metade alemão, só. Meu pai era do Cazaquistão. Sabe, eu não sou nazi. Mas eu acho que os judeus estão fazendo muita merda no mundo. Os judeus e os Estados Unidos.

Tem coisa que nem lavando muito fica nova.

Coincidências

Não acredito em coincidências. Mas não posso negá-las com muita firmeza, tampouco aceitá-las sem reservas. É uma opinião dupla enunciada na mesma afirmativa – não acredito em coincidências – e interpretada em dois níveis. Posso dizê-lo como um comentário cético em relação às cadeias de eventos que desembocam em um único fato de aparência conclusiva. Como um ciclo de acontecimentos que se encerra em grand finale, cujo intuito parece ser a transmissão de uma mensagem que nunca entendemos direito. Nesse caso, não acredito que tenham um significado. São antes uma prova de que o que há de meticulosamente arbitrário nesse ciclo é o que governa nossos passos.

Posso também afirmar que não acredito em coincidências e assinalar, com isso, o oposto: que não acredito que sejam meras ocorrências sem um propósito final. Nesse caso, “não acreditar” é “acreditar”, independente da fragilidade do jogo semântico embutido. Essa interpretação exige das coincidências mais do que um vácuo: sem um propósito final, por que o universo se empenharia em manter seu ritmo conspiratório, na maioria das vezes para resultados absolutamente banais? Ou não existe resultado banal?

Coleciono coincidências como esta. Eu ia sair de um banco 24h da Avenida Nossa Senhora de Copacabana quando a mulher parada no caixa eletrônico à minha direita pediu minha ajuda; voltei e parei ao lado dela. O terminal de consulta que ela usava, quando o olhei, apresentava uma mensagem de erro; em poucos segundos, a mensagem desapareceu e o terminal voltou à tela inicial. A mulher me agradeceu e logo tapou a tela com o corpo. Dispensada sem ter sido de qualquer utilidade real a ela, deixei o banco.

Desci a escada de volta à Nossa Senhora de Copacabana e, na esquina com a Belford Roxo, alguém gritou meu nome de um carro e parou no acostamento para falar comigo. Então essa era a função daqueles segundos inúteis dedicados a uma estranha no banco? Atrasar meus passos para que eu chegasse a um determinado ponto da calçada no momento exato em que meu amigo pudesse me ver passando? Se eu tivesse saído segundos antes, teria entrado na Rua Belford Roxo e ele, dirigindo seu carro pela Avenida Nossa Senhora de Copacabana, não me veria passar. Se eu tivesse saído segundos depois, ele já teria passado pela esquina da Nossa Senhora com Belford Roxo quando eu a cruzasse.

Outra da coleção: no carnaval, amigos estragados conversavam no Capella, na Lapa. Desconectei do papo para dar uma olhada na rua. Pus os pés fora do bar e quase biquei as canelas de um conhecido. A função do encontro, se houve uma, era me fazer dividir um táxi com o sujeito e tentar invadir com ele a Marquês de Sapucaí sem ingressos (e sem êxito).

Já os segundos tomados de mim por uma estranha no banco denunciam certa orquestração cuidadosa dos acasos. Se a sincronia dos eventos que levam às coincidências é tão perfeita, por que não significam nada? As coincidências mais bestas querem fragilizar, desacatar-nos, rir de nós com sua pontualidade. E tudo isso seria uma bobagem se o mundo não fosse tão grande.

Wednesday, May 9, 2007

Amar é: acreditar no comunismo em 2007

Eu estava voltando pra casa agora à noite quando reparei nuns cartazes novos, que não tinha visto ontem: falavam da manifestação que aconteceria a partir das 21h na Heinrich Platz, mesmo ponto de encontro para a bagunça anti-capitalista que ocorreu em 30 de abril. Tinha andado o dia inteiro e a última coisa que eu queria era caminhar mais até Warschauer, onde foi parar a passeata naquela semana.


Estes comunistas são mais pobres que os da semana passada,
que tinham até poster colorido com a foto da Britney Spears.

Fui pra casa, sô, que passeata o quê. Roupa de dormir, chinelos, tudo quentinho. Computador ligado pra mandar outro post que não era bem este. E aí escuto a passeata chegar a minha rua. Escuto umas bombinhas - são bombinhas mesmo, de São João. (Este é o mal de lhes faltar a nossa Festa Junina. Se fizessem Festa Junina em Berlim não seriam comunistas, teriam mais o que fazer entre barraquinhas de quentão e salsichão, pular fogueira iá-iá de carros incendiados; teriam outras ocupações esses alemães que contraditoriamente usam Adidas e querem eliminar o capitalismo da face da Terra). Meti um casacão por cima da roupa de dormir, calcei as botas e desci.

O bom de andar com essa galera do comunismo é que eles realmente não se importam se você já amarrou o cabelo pra ir pra cama, se está de pijama, o esmalte descascado nas unhas. Eles são comunistas, sacou?, apesar dos Adidas.

Desemboco na calçada do prédio e já estou no meio da muvuca. Uma menina puxa meu braço e encaixa no dela. Todos caminham assim, com os braços entrelaçados. Eu já estava de penetra, não quis também ser diferente. Ela tenta falar comigo em alemão e eu confesso logo que a alemã (no sentido funk-carioca da coisa) sou eu. Ganho uma guia para a passeata. Melanie é assistente social e mora há apenas um mês em Berlim, vinda de uma cidadezinha do sul que a zoeira da multidão não me deixa compreender o nome. Pelo outro braço ela prende um amigo de infância da tal cidadezinha natal, Daniel, que veio visitar.

Daniel foi contando como era sua vida no interior, que também estranhava os hábitos dos berlinenses, "como beber cerveja na rua de manhã." A gritaria continuava, nosso papo estava animado. Já não me importava mais se íamos atravessar como na semana anterior a Oberbaumbrücke no frio - tem chovido aqui desde segunda-feira -, e voltar a pé já que o U-Bahn pára de funcionar cedo durante a semana.

Cedo para os padrões dessas passeatas, que costumam passar de meia-noite, quando elas rendem.


Luz, câmera, comunistas



Para os manifestantes, a coisa só rende
quando dá merda entre eles e os policiais.


Cara-pintada


Esse saco de lixo é uma fogueira mal-sucedida...


... Mas a polícia comparece pra apagar o fogo inexistente.


Quando chegamos na Schlesische Strasse é que o jogo de provocar-o-guarda começa a pegar. Na outra passeata isso aconteceu em cima da ponte. Nesta eles tiveram misericórdia e pararam antes de termos andado até lá. Os manifestantes jogam garrafas de cerveja vazias no chão, os policiais vão atrás. E quando vão atrás, grupos de manifestantes se destacam de suas correntes e fazem um círculo em torno dos policiais. Mais policiais vêm para o mesmo ponto da passeata. Vermelho, preto e verde, vermelho, preto e verde, vermelho, preto e verde.

Comunismo aqui é igual o Flamengo, não contei? É rubro-negro. Embora eu tenha visto uma bandeira cor-de-rosa com a estrela preta no meio. Verdes são os guardas. E tá muito na moda a camisa do Che.

Os rubro-negros desandam a esculachar os verdes. Alguém atira outra garrafa na direção da polizei. O vidro se espatifa no chão, bem perto de um dos policiais, que saem da fila indiana das calçadas em direção ao local de onde veio a garrafa. Punks caem na gargalhada. O povo zoa os policiais e canta algo como "porcos polícias de merda". Os fotógrafos fazem a festa, os cinegrafistas correm de um lado para o outro. Todos estão felizes em Berlim.

Sunday, May 6, 2007

Noite

Estou dividindo meu "estudo da noite" por posts. No anterior eu conto por que, mesmo velha e cansada das casas de luz vermelha (boates, toda boate tem luz vermelha, you perv), eu freqüento várias aqui. Neste, começo a contar sobre as casas. Olha como eu sou organizada.

Antes de descobrir o Cafe Fatal, encontrei o Berghain. Ou melhor, um armazém vazio. Numa noite de sábado desemboquei em Warschauer pela primeira vez, andando sozinha a procura do clube, sobre o qual um guia turístico me diz apenas que tem festas "desinibidas". Um amigo brasileiro ordena que eu entre lá no sábado e saia somente na segunda-feira, pois as festas tendem a durar 48h.

Às oito da noite filmei um pouco a fachada, enquanto ainda estava claro, e fui jantar no restaurante do Ufuk ali perto (e foi quando o turco me garantiu que sopa de tomate com uísque me manteria bem disposta não só para dançar a noite inteira como também para viver 100 anos, se eu tomasse as duas coisas juntas todos os dias). Quando voltei lá, por volta de meia-noite, encontrei o armazém ainda às moscas. Luzes apagadas, nem um cachorro de punk sequer revirando lixo em parte alguma. Algumas garrafas quebradas e cacos de vidro espalhados sobre o chão de terra indicam que um dia, ali, houve festa. Mas hoje, nada da famosa fila debaixo da friaca, purgatório gelado dos clubbers que, dizem, podem passar mais de uma hora ali e, ao chegarem à entrada, serem barrados por "roupa ou postura inadequada". Quando li sobre a política exclusiva do Berghain, tive certeza de que seria mandada de volta para casa assim que o segurança batesse o olho no meu jeans-e-tênis, e que eu cumpriria a tortuosa caminhada até o metrô junto com outros rejeitados da noite berlinense, tremendo de frio e vergonha. Risos.

Na moita

Não foi naquela noite que verifiquei se essa nóia tinha fundamento. Como estava tudo vazio, andei até a estação de metrô de Warschauer. Lá ouvi um tunti-tunti familiar, que não vinha do U-Bahn passando sobre os trilhos. Cravado na estação, sem neon nem filas quilométricas, fica o clube Matrix. Pensei estar entrando nele quando passei por uma porta do tipo que se espera encontrar num frogorífico, depois de o segurança me garantir que lá dentro estava "very good". Numa cidade em que os maiores clubes são notórios por barrar todas as noites algumas dezenas de pobres coitados à porta, qualquer sinal de simpatia num segurança deve levantar suspeita. Mas confiei no cara. Ora, debaixo do metrô, tocando música eletrônica em volume ensurdecedor e chamado Matrix, pensei, isso aqui há de ser o suprassumo da modernidade.

Eu tinha entrado na Haus B., ou "Büsche", como me informava uma faixona lá dentro. Olhando no dicionário Alemão-Português para viajantes aflitos, descobrimos que "büsche" quer dizer arbusto, moita, mato. Esse dicionário é bom mesmo, pois naquela noite a Büsche estava lotada de alemoas que elegeriam sua Miss Haus B.

Como as maiores casas noturnas que vi aqui, a Haus B também é labiríntica, com corredores que parecem te levar a outras festas e portas que pensamos tratar-se do toiletten mas são, na verdade, outro ambiente que não é exatamente banheiro mas serve para se fazer umas intimidades.

Clubber berlinense: origem

Berlinense é como gremlin: é jogar neles água que passarinho não bebe e soltar num lugar meio escuro que ficam loucos. As pacatas figuras que passam as tardes de verão sentadinhas nos cafés da Oranienstrasse ou da Schönhauser Alle, desaparecem em autocombustão causada por fogo no rabo. De suas cinzas nascem os clubbers.

Então acontece que nessa noite em que baixei na Büsche o pessoal estava muito animado com o evento da Miss. O DJ intercalava hits do passado pouco remoto, como George Michael, "Freedom", com a inevitável "Promiscuous girl" da Nelly Furtado, mais Beyonce, Justin Timberlake e Gwen Stefany. Na pista sacudiam-se gerações, tipos, cabelos, raças, estilos absolutamente diferentes de mulheres, que só tinham uma coisa em comum: die büsche.

Em meio à androginia galopante - lugar comum em Berlim; aliás, foi primeira cidade do mundo a abrigar uma organização para homossexuais, em 1987 -, moicanos e senhoras de terninho com cara de quem trabalha no Serviço de Orientação Educacional de algum colégio, chamou a minha atenção a morena de véu. O cabelo preso para o alto sob o pano, "penteado" comum entre as muçulmanas que vejo no meu bairro em Berlim todos os dias. O rosto confirmava traços que identifico nas ruas mais turcas de Kreuzberg, emoldurados sempre pelos panos de cores sóbrias que embrulham na cabeça.

Deve ser muito difícil ser quem ela é. Imagino que não seja abertamente gay como as amigas com quem está rindo e cantando na Haus B, mas o fato de sair à noite já deve ter gerado uma guerra particular bem séria em sua casa. Por muito menos já morreram algumas mulheres muçulmanas em Berlim, em "assassinatos por honra". Não tenho certeza de que ela é muçulmana. Por outro lado tudo nela diz que é.


Era proibido fotografar e filmar lá dentro, mas encontrei algumas imagens do evento no site da boate

Não entendi o que estavam anunciando do microfone na cabine do DJ para todos os cantos da casa, mas logo um enxame de mulheres se acotovelava em torno da pista, formando a passarela para as concorrentes desfilarem. Oito participantes tentariam conquistar a platéia e o juri (foto acima), cada qual com seu estilo bastante distinto, todas na extremidade dos 100 graus da Escala Kinsey.

Entra uma gordinha de óculos de aro fino, cabelos bem curtos em corte assimétrico; entra uma loira estilo sueca-sem-sutiã; entra alguém mal-parado no meio de um processo de mudança de sexo, que não sobreviverá até a final. Os juízes serão cruéis: androginia sim, indecisão não.



O público aplaude todas com o mesmo entusiasmo. As participantes se esforçam. Não é apenas um walk-in. A coisa toda vai durar cerca de uma hora, com direito a mudança de trajes e show de talentos. Entrarão ainda, uma a uma, exibindo-se em pijamas e camisolas (escolhas feitas a partir do perfil butch/femme de cada uma). A sueca-sem-sutiã, por exemplo, virá de baby-doll; a menina do corte de cabelo curtíssimo assimétrico surgirá num camisolão de homem estilo século XVIII, com toca.

Entre as performances de destaque, uma lapdance em que alguém da platéia é convocada a se sentar numa cadeira no centro da passarela para receber as reboladas da concorrente.

A gordinha de óculos leva o título. Ou não entendi nada: todas recebem a faixa vermelha e flores.

Saturday, May 5, 2007

Luz e temperatura

Meus cadernos estão cheios, em comparação o blog me parece vazio. Mas deve ser assim mesmo.

***

Quando o diretor que faz o documentário do projeto esteve por aqui para filmar, na semana passada, fomos direto a um clube, que tinha sido minha primeira descoberta na vida noturna da cidade. E até agora permanece a melhor. Apresentei a ele o "chá (batizado) dançante" do Cafe Fatal com o entusiasmo que o lugar me desperta mas avisei: tô velha pra esse negócio de casa noturna. Já desde os 22, quando parei de sair muito à noite. Mas em Berlim as coisas têm que ser diferentes, são os berlinenses que mandam; sem noite, perderia uma porção fundamental da vida dessas pessoas. Mais fundamental que a noite do Rio para o carioca.

No Rio, se não vamos à Lapa por qualquer motivo, existe a praia para compensar os encontros perdidos da noite anterior. Aqui, se eles não vão às casas noturnas... "social", só no verão seguinte. Vida controlada pela luz e pela temperatura, como em tantos outros cantos do mundo, mas com algumas características peculiares.


Detalhe de "Sommer", verão representado nas Crônicas de Augsburg, de Jörg Breu (1475-1537), no museu histórico alemão. Igualzinho a hoje.

Durante o inverno toda a vida social que os mais jovens têm aqui está concentrada em boates e bares: sair de casa, entrar no táxi, sair do táxi direto pro clube. No verão (isto que vivemos agora e que ainda não consegui levar a sério como "estação quente"), mesmo com o vento muito frio, todos ganham a opção dos bancos de madeira dos cafés, enfileirados pelas calçadas; ganham as "praias", locais com areia escura, cadeiras reclináveis e drinks servidos em longos copos com guarda-chuvas coloridos; vão para a beira do rio Spree, aonde tomam sol lendo o Berlin Morgenpost; como já vimos aqui no blog, até uma piscina tony nos fundos de um restaurante serve. Mas nada disso enfraquece o hábito de se meterem em espeluncas subterrâneas, ou que ocupam terraços inteiros, ou que funcionam em galpões de antigas fábricas desativadas - quanto menos comum o local, mais cheio estará. Assim, não me resta alternativa senão tomar meu cálcio e me meter nas mesmas espeluncas.

SILÊNCIO

Depois de muitos dias falando mais comigo mesma do que arriscando um "bitte" ou um "guten tag", entrar em contato com um brasileiro novamente me deu certo alívio. Especialmente por causa da paranóia com o silêncio.


Happy hour na farmácia: compre um Rivotril e leve três

Tive certeza de que não estava 100% doida quando o diretor do filme confessou que percebia o tal do silêncio. É um silêncio pesado. Estávamos no Hackescher Market lotado, e tudo que ouvimos lá foi um zumbido que para mim já é característico, zumbido baixo de vozes baixas, quase saias roçando meias-calças. O roçar da pouca conversa baixa, ou do nada. O S-Bahn que passa pelo meio do prédio de tijolos vermelhos. Um solitário cachorro de punk, Paulinho Mendes Campos, que late ao meio-dia em Pankow e pode ser ouvido no Hackescher Markt. O brasileiro também ouviu o silêncio, gravou o silêncio.

A maioria dos filmes que fiz com a minha câmera registram solas de sapatos batendo nas calçadas, um único carro que passa ao longe numa avenida do Mitte que, fosse Berlim uma cidade comum, estaria engarrafada na hora do rush. Não parece haver rush. A única coisa rápida em Berlim é o S-Bahn. Tudo o mais é lentidão. Ruídos de eterno feriado. E os que curam as ressacas de quarta-feira em horário comercial na quinta não me deixam mentir.

De dia ando pelas ruas à procura de gente, e sempre penso que há pouca. Dou um significado próprio ao caso, encasqueto, chuto: essas pessoas vivem é à noite, mesmo quando o sol começa a se firmar na primeira semana de Maio. Estão habituadas a ter as boates como epicentro de suas vidas durante boa parte do ano, enquanto é tão frio que não há outra possibilidade senão se divertir fechado numa caixa com aquecimento central. Agora, há movimento nos cafés. Mas sempre me parece pouco, mesmo nas ruas de maior movimento.

Toda vez que escuto meus passos na calçada ou olho para uma rua em que os semáforos parecem servir apenas a duas bicicletas que a cruzam lentamente, tenho o mesmo pensamento. Muitos cenários espetaculares, mas faltam atores.

Falta gente em Berlim

Não sei se dará certo a longo prazo, mas incentiva-se (investimento do governo) a turma aqui a parir para dar uma equilibrada na pirâmide e, quem sabe, impedir que a cidade se torne inteira Nova Istambul.

"A Alemanha seria muito melhor sem os alemães, rárárá!".

O motorista de táxi que me leva a um mercado turco ri muito da própria piada e verifica no retrovisor se conseguiu ao menos arrancar um sorrisinho cúmplice da brasileira. Deve ter encontrado no espelho olhos arregalados. Estou me lembrando de outra motorista de táxi, a alemã que falava português. Este motorista é turco, nada há de espetacular em que faça piada com os hábitos dos alemães, tão diferentes dos seus. Mas a alemã que malhou os alemães durante todo um trajeto de dez minutos no táxi ainda me intriga, pois aqui não vinga a síndrome de vira-latas que leva o brasileiro a se esculachar constantemente. De acordo com esses dois - um turco e uma prata-da-casa - os alemães são uns chatos.

Nas boates, por outro lado, verfico que se esbaldam. De uma maneira que os brasileiros não estamos habituados a ver. Arremessam na pista coreografias que jamais imaginei possíveis, com pinta de treinamento gravitacional da Nasa. Vão do "robô" (banido em qualquer outro lugar do mundo desde o final dos anos 80) até pulinhos de balé clássico ao som de funk carioca, como vi na festa Berlin Hilton. Vale homem barbado de mini-saia e mulher de melindrosa. Toda noite é festa à fantasia. Mas fora de uma pista de dança, boa parte deles continua se esforçando a corresponder ao clichê que os qualifica como ranzinzas.

Enquanto isso os turcos gargalham nas calçadas, povoam e atraem movimento para áreas da cidade que não existiriam sem o seu comércio. Os alemães talvez não percebam o quanto estão apaixonados pela cultura do povo que fincou a Little Istambul em Kreuzberg. Não notam que é cultura o durun dönner, o dönner kebab com que vêm substituindo todos os dias suas salsichas: engolem e digerem tudo com chá preto importado da Turquia. Enquanto tomam o chá, o turco puxa conversa detrás do balcão. Quer saber se estava tudo bom, se a rádio está agradando, se a música não está muito alta. A música da rádio turca, que o alemão vai ouvindo e quando percebe, já reconhece. Som bom para bater o pezinho. E logo estoura mais uma festa de música eletrônica turca para concorrer com a Gayhane do clube So36 e este e outros alemães vão estar lá, dançando essa música e gostando de algo estrangeiro - que já não é mais tão estrangeiro assim.


Globalização

Tomo o trem ao sair do mercado. Joseph Roth estava certo ao escrever que passamos a conhecer essas pessoas cujas casas invadimos quando andamos de S-Bahn. Os trens passam tão rentes às janelas que seus móveis se tornam familiares, alguns rostos reconhecidos. Repetem-se os turcos reunidos em torno de uma mesa, jogando cartas.

É a última coisa que penso antes de começar a cochilar no S-Bahn. Sei disso porque anotei na caderneta que tenho nas mãos quando acordo com alguém me pegando pelo braço. Acordo e dou de cara com um homem que me cola a carteirinha de fiscal de metrô nos meus olhos: "Ticket!" Demoro a me indignar (silenciosamente), a entender que o toque impróprio - é impróprio porque foi quase um sacode - é justificado aqui pela autoridade investida no homem.

Esses fiscais andam à paisana nos metrôs e trens para surpreender gente sem bilhete ou que tenha se esquecido de validá-lo (é necessário não apenas comprar, mas colocar o papel na maquininha que marca a hora da compra do bilhete e fica ao lado da outra, que os dispensa). Concordo que a batida seja necessária; mas a abordagem Stasi poderia ser abolida. Vou colocar isso na caixa de sugestões da estação de trem. Tenho certeza de que existe uma.

Mais sobre esse assanhamento de berlinenses com a noite amanhã. Falarei do ladrão de Damasco, da gangue de passarinhos, do alemão que falava demais, da Berlin Hilton e do Cafe Fatal.

O post ficou imenso e eu só estava introduzindo a conversa. Mas como já expliquei lá no começo do texto, tô velha e esse negócio de sair dia e noite, todos os dias... zzzzzzzzzzz. Não me desperte sacudindo meus braços.

Tuesday, May 1, 2007


Oranienstrasse, 20h, 1 maio [clique para abrir a versão maior da foto]

1 mai


Don't be a tourist / why don't you come on back to the war? / it's just beginning
[Leonard Cohen, There is a war.]

Saturday sun

[nick drake]*

Saturday sun came early one morning
In a sky so clear and blue
Saturday sun came without warning
So no-one knew what to do.
Saturday sun brought people and faces
That didn't seem much in their day
But when I remember those people and places
They were really too good in their way.
In their way
In their way
Saturday sun won't come and see me today.

Think about stories with reason and rhyme
Circling through your brain.
And think about people in their season and time
Returning again and again
And again
And again
And Saturday's sun has turned to Sunday's rain.

So Sunday sat in the Saturday sun
And wept for a day gone by.

*[ouça aqui.]

Estrangeiro

Folha de S. Paulo

CECILIA GIANNETTI

Quem imigra tem os olhos aplicados, à procura de sinais de sua identidade respingados em letreiros de mercearias

"NOW THAT I am categorized / Officer, get me naturalized" - Gogol Bordello, "Immigrant Punk" *

Há duas maneiras de se viver no estrangeiro. Uma delas é deixando de ser estrangeiro. Guardar as raízes numa caixa dentro do closet, para serem retiradas novamente apenas como fotografias quando surgir a pergunta "De onde você é?" -constantemente ouvida e repassada entre pessoas de tantos lugares distantes, em cidades de imigrantes como Nova York, Londres ou Berlim. Há quem mostre apenas o adesivo colado do lado de fora da caixa: "origens", escondendo o conteúdo como se fossem as economias que resguarda das taxas de um banco. Assim protegida, sua história pertence mais ao presente que ao passado. Não é muito acessada, enquanto o estrangeiro se mistura à cor e hábitos locais. Outros levantarão a tampa da caixa de vez em quando, para exibir rapidamente o que comiam na infância de quintal, o que ouviam no rádio, como eram as pessoas e de que maneira se comportavam numa fila de banco, ou no supermercado do seu lugar de origem; se havia shopping lá, se havia bombas, guerra civil, desemprego, casamentos de velhos com crianças e ditaduras militares. Ou se tudo era "normal", o tipo de normalidade dos países mais ricos.

Outra maneira de se viver em uma terra que não é a sua é entrando na caixa da identidade nacional alheia. Protegido por suas paredes, usa-se a caixa como bote salva-vidas, flutuando cautelosamente pela cultura e pelo dia-a-dia do novo país. Nesse caso, o estrangeiro raramente cruza as fronteiras da Chinatown de NY, onde vive e trabalha entre a sua própria gente, trocando meia dúzia de expressões em inglês por dia, geralmente com fregueses: "Five "dólá'", ""Haf" a nice day".

Poucas palavras, mas a cisão está lá. Em Tower Hamlets, o imigrante execra o jubileu da rainha. No caso dos turcos na Alemanha, às vezes é preciso que enxerguem semelhanças com a paisagem de Istambul até mesmo no comércio em torno do metrô de Kotbusser Tor. No Rio de Janeiro, um imigrante irlandês abre um pub em Ipanema, cercando-se de outros irlandeses que apenas passam pela cidade quente.

De todo modo, quem imigra tem os olhos sempre aplicados, despertos, à procura de sinais de sua identidade respingados em letreiros de mercearias, embalagens de produtos importados, na língua original ouvida ao acaso no metrô, falada entre turistas; a camisa de um time de futebol pelo qual torce à distância, avistada enquanto sobe a Quinta Avenida. Os olhos procuram fantasmas, reconhecimentos. E os encontram em qualquer vizinhança.

Em Notting Hill, uma caribenha vê um ex-namorado atravessando a rua; amigos deixados para trás esperam em esquinas improváveis. Liberdade, em São Paulo, aguarda visitas que talvez venham para ficar. Os fantasmas do imigrante estão todos vivos -e, tirando a saudade, passam bem. Pelo menos é o que contam nas cartas.

*(Ouçam Gogol Bordello em Myspace.com/gogolbordello)

Anti-Kapitalismus Kampagne


As manifestações pelo Dia do Trabalho em Berlim começam cedo, no distrito de Kreuzberg: ontem, 30 de abril, a primeira passeata saiu da Oranientrasse em direção a Wauschauer.




Sabendo disso, a polizei chega cedo ao local...


... e começa a cercar a Heinrichplatz, foco de manifestações violentas no passado, pelos quatro cantos. São mais de vinte furgões da polícia, além dos carros menores que circulam nas ruas adjacentes fazendo muito barulho.


Toda a gurizada que eles acham suspeita, toma uma dura.




Britney Spears, ícone pop mundial que pirou recentemente, é também, por isso mesmo, ícone da campanha anti-capitalista e anti-G8 cuja marcha ontem, 30.04, chegou a incluir mensagens pré-gravadas de apoio da cantora norte-americana (ou de alguém imitando-a muito bem. Hilário.) à causa do grupo de manifestantes.


Aonde a gente vai, a polizei vai atrás.


O Anti-Konflikt Team também.


Palavras de ordem e muita música eletrônica saíam dos alto-falantes do carro de som enquanto a marcha cruzava a Oberbraummbrücke por cima do rio Spree, à noite.


Com música, cerveja e gente na faixa dos 16 aos vinte-e-poucos anos, não há dúvida de que a passeata tem lá outras funções sociais.






Alguns não saem de casa, mas fazem questão de ver pela janela.






Nazis lembrados.