amores expresos, blog da CECÍLIA

Monday, April 30, 2007

Wundervoll

O sistema educacional da alemanha foi reprovado pela ONU, que enviara, em 2006, seu especialista Vernor Muñoz Villalobos (que é da Costa Rica) para avaliar as escolas aqui. Foram consideradas por Villalobos atrasadas e discriminadoras.

Opinião do jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung:

"Which other country possesses such low self-confidence that it lets a professor from Costa Rica, who is hardly able to speak German, read it the riot act? In France at any rate this emissary would be treated with contempt - and rightly so."

Leia mais no Spiegel online.

Sunday, April 29, 2007

SAÍDAS E ENTRADAS

No começo pensei que não ia conseguir fazer o diário. Caminhar por uma cidade estranha todos os dias - e algumas noites - não deixa muito tempo para escrever longas e detalhadas, state-of-the-art entradas. O proverbial "ou assobia ou chupa cana". Mas logo descobri que, se não escrevesse, os dias se misturariam uns aos outros, e depois eu mesma teria dificuldade em identificar o quê aconteceu exatamente quando. Fazer diário de viagem é normal, mas um diário aberto é mais complicado. Tenho blog, mas nele não costumo dizer aonde fui, com quem nem como, se de charrete ou disco voador. Quando comecei a fazer blog, mais ou menos em 2000, não me preocupava se por acaso comentasse alguma coisa da minha rotina ou mais pessoal: ninguém estava lendo, além dos meus amigos e um ou dois malucos que eu nunca ia conhecer mesmo. Hoje, quando conto alguma coisa do meu dia-a-dia no Escrevescreve, pode desconfiar que é invenção.

Mas neste blog de Berlim a proposta é contar fatos da viagem, então não vou avacalhar com isso. Estou atrasada em relação a algumas entradas e hoje é um dia bom para resolver isso. Tenho que ficar em casa esperando o Tadeu, que já está na cidade pra filmar as cenas de Berlim, e pode ligar ou bater à minha porta a qualquer momento (vai saber...). Fiz uma bela maquiagem no apartamento, que eu tinha zoneado bastante desde que entrei aqui, há duas semanas. Vamos ver se cola.

Criei uma rádio na LastFM (já era hora), com tudo que ando ouvindo. Mas quando tento colocar exatamente o que quero ouvir, não funciona bem assim: a tal da LastFM me manda ouvir alguma coisa parecida com o que quero ouvir. Se algum de vocês souber como faço para incluir na programação da minha rádio exatamente o que gostaria de escutar, por favor, me mande um email.



Peraí. Já escrevi, já criei rádio... agora eu quero ir pra rua. Tadeu, te vejo à noite. Os "alemão" tá tudo estirado na praia fake deles, tomando sol e cerveja em frente ao rio Spree. Vou observar esse processo de favelização europeu debaixo da ponte e já volto.


Rio Spree, começo da primavera


Uma piscina Tony transformada em chafariz nos fundos de um restaurante cujos cardápios trazem uma foto do Pelé. Note as cadeirinhas de praia em torno da piscina Tony. Nas horas de maior movimento, comensais refrescam seus pés na água.

Friday, April 27, 2007

BERLIM - Entrevista

[trecho da entrevista que dei hoje a Juliana Lugão, da Deutsche Welle. o tom das minhas respostas é assustadoramente careta.]


Antes de chegar na Alemanha, qual era sua principal imagem do país? E do povo alemão?


Antes de vir para cá, quando soube que Berlim seria o meu destino, automaticamente se desenhou na minha cabeça o mapa turístico básico (Arquitetura, História, Arte), apimentado com rumores sobre entretenimento baseados na vida noturna mais enlouquecida que a cidade tinha na década de 90. Eu esperava um povo que ainda está redescobrindo sua alegria, reconstruindo eternamente sua vida. De certa forma o berlinense corresponde a essa expectativa.

O que mais te surpreendeu quando você chegou?


Logo no segundo dia, caminhei a esmo e dei de cara com Checkpoint Charlie. Para quem vive aqui, e acha cômico aquele enxame de turistas em torno do local, ele já pode ter perdido muito de seu significado. Em seguida, encontrei a exposição ao ar livre Topography of Terror e o trecho do Muro que ainda resta lá. No terreno aonde funcionava a sede da Gestapo, ouvindo as vozes dos julgamentos do Tribunal de Nuremberg, entendi que Berlim não quer, não pode e não deve esquecer - ou isso se voltaria contra ela mesma. Seria como violar-se.


Você já está há uma semana em Berlim. Conseguiu conversar com os alemães? Qual a impressão que teve deles nas primeiras conversas?


Perdida à noite numa junção de ruas que eu não conhecia, nem conseguia encontrar no mapa, fiz sinal para um táxi dirigido por uma mulher. Ao entrar, eu sorri. Imediatamente ela me perguntou se eu falava espanhol. Alemã, me garantiu: "alemães não entram num táxi sorrindo." Quando eu disse que falava português, ela me respondeu na minha língua: "Eu também falo, um pouquinho." Ela tinha morado no Brasil por quatro meses, há alguns anos, visitando uma irmã que é freira e vive em São Paulo. A taxista então me disse que aprendeu português no período que passou por lá graças à insistência dos brasileiros em se comunicar com ela; se não compreendia o que lhe era dito, eles faziam gestos, mímica, e repetiam as palavras até que ela entendesse e repetisse o que dissessem. "A maioria dos alemães", garantiu, "não fazem um esforço para compreender nem o inglês. Se percebem que é estrangeira, não têm paciência e largam a conversa antes de começar. Você vai ter problemas..." Isso quem me disse foi uma alemã! Me senti desencorajada. Espero, sinceramente, que ela esteja errada.


Você já deve ter passeado pela cidade, também. O que você achou? Percebeu diferenças entre as partes ocidental e oriental? Em quê?



O silêncio de Berlim me surpreende, poder ouvir passos dos pedestres nas calçadas e as rodas das bicicletas girando em ruas urbanizadíssimas mas que, mesmo na hora do rush, têm pouco movimento de carros - e também de pessoas -, em comparação com a insanidade do trânsito e a superpopulação do Rio de Janeiro e de São Paulo.


Alguma experiência notável com o povo ou mesmo no dia a dia? Fazer compras, mercado, formas de se aproximar...


Para citar as mais recentes (anteontem, ontem), além da taxista alemã e de Ufuk, um dono de restaurante turco com quem conversei bastante em Friedrichshain, teve essa mulher que disse para mim na rua algo que não entendi - não da maneira clássica como costumamos compreender as coisas na nossa língua, ou numa língua que conhecemos mais ou menos. Qualquer coisa dita para mim em alemão é insondável. Mas meu cérebro entendeu a mensagem de alguma maneira. Assim que a mulher deu seu aviso (superficialmente) ininteligível para mim, baixei os olhos para checar meus tênis. Um deles tinha o cadarço desamarrado. Era isso que ela estava tentando me dizer. Como foi que "entendi" automaticamente, sem compreender a língua, não sei. Mas não foi exatamente uma coincidência eu ter me abaixado ao ouvir a frase - uma das palavras que ela disse soava como "Xúl", ou shoe (sapato em inglês).

Os brasileiros - gaúchos - que encontrei quando estava novamente perdida em Warschauer e me colocaram no trem certo para Friedrichstrasse, tambem foram uma coisa surpreendente. Um deles tomava chimarrão por detrás do balcão de uma barraquinha de café na estação de trem. Foi uma coincidência louca, que aconteceu em boa hora.

Já saiu pra lugares que tenha olhado em volta e pensado: "esse é um lugar tipicamente alemão"? O que foi que fez você pensar isso?


Já fui a alguns lugares em que pensei, "este é um lugar tipicamente berlinense". Aonde mais poderia existir o SO36 senão em Kreuzberg, Berlim?

Mitte é a nova Alemanha para mim; Potsdamer Platz, Alexander Platz, Kürfurstendamm. Alguns desses lugares são citados pelo Joseph Roth em textos que datam do começo do século passado e é muito forte percorrer as ruas de que ele fala, especialmente quando penso nos relatos dele a respeito de imigrantes.

Todo o burburinho em torno do Hackesche Markt, além das cadeiras de praia espalhadas à beira do rio Spree, com o povo bebendo cervejas maravilhosas e fumando cigarros como se fossem o próprio ar que respiram, esse jeito de conviver e a vontade de estar na rua para mais uma primavera, tudo isso deve ser tipicamente alemão (com apelo universal). A primavera é mais alemã que seu inverno. Não acredito na taxista; não creio que seja um povo frio. Só precisam de um pouco de sol.

Thursday, April 26, 2007

BERLIM - Barreiras da língua I

Outdoor que tento compreender:

Um homem bonito - seminu, sentado sobre uma espécie de muretinha - dobra-se para a frente, enrolado em papel laminado. Abaixo da imagem lê-se uma coisa em alemão que eu não sei o que quer dizer.

"Contra a cólica, Papel Laminado. Agora também em Berlim!"

"Não coma Dönner Kebab do Ufuk! Dönner dele faz sonambulismo! Faz acordar na praça, nu, embrulhado em papel laminado! NÃO COMA!". (Anúncio difamatório da concorrência.)


Não sei. Não sei.



Outdoor que compreendo (mais ou menos):

Uma loira usando luvas compridas vermelhas e um colar de pedras que parecem caras, segura um copo cheio de cerveja que brilha à beça. Ela sorri maliciosamente abaixo do texto "Kiss me Kindl!" Kindl é marca de cerva berlinense. A loira é a versão germânica das peladas que vendem cerveja nos outdoors brasileiros. Pelo cetim e pela jóia, dá pra sentir que a intenção na propaganda berlinense é que a loira transmita um certo ar sedutor porém sofisticado (como se arrotar uma bebida gasosa feita de trigo pudesse ser glamouroso). Repare: ela manda um beijinho pra você.

[OBS.: não encontrei na web a versão do anúncio com a inscrição "Kiss me Kindl!", mas é como aparece por toda a cidade, com letreiro].

Tuesday, April 24, 2007

BERLIM - Perdida

[faster pussycat] Em frente à Galeria Kaufhof, em Alexanderplatz, os punks colocam seus cachorros na água do chafariz. Está frio e os bichos latem sem parar, incitados pelos donos a se atacar, sacodem a água do pêlo seboso e molham os turistas que estão sentados à beira do chafariz. Paciência. A excessiva preocupação dos alemães com o meio ambiente não passa pelos animais. Quem tem cachorro ganha uma grana por mês para manter o bicho (e bebe e/ou fuma e/ou pica essa grana). Mais sobre isso abaixo.

***

Pois então, a mania anal-retentiva de proteção à natureza dos berlinenses. Preciso tirar um dia inteiro só para arrumar meu lixo. É algo complicado, que exige certa dose de atenção. Todos os prédios têm latas de lixo separadas para tipos diferentes de detritos. Até aí tudo certo. Mas são SEIS (6), meia dúzia de latões de cores diferentes para lixos diferentes, pareados no quintal. Não entendo o que dizem os rótulos dos latões, mas sei que devo colocar vidros de produtos como maionese em um deles; garrafas noutro; plástico separado (no latão verde, esse eu descobri), papel separado; pilhas e bateria noutra lata; restos de comida na lata que tem muma cenourinha desenhada na frente. As latas vivem vazias. Parece que alguém recolhe o lixo diariamente, então não tenho base de comparação. Espio para dentro de um latão para descobrir que tipo de lixo se esconde nele e o encontro vazio.

Vou descer com o lixo e um dicionário, para decifrar as outras latas. Algo me diz que, se eu colocar uma embalagem na lata errada, eles vêm atrás de mim.

***

Também vou arranjar um rádio a pilha na loja do turco de Oranientrasse, para ouvir a rádio "deles", que só toca música oriental histérica. Quando paro no Döner Berlim, em Kotbusser Tor (uma das dezenas de lanchonetes de comida especificamente turca, que vêm tomando o lugar do currywurst na barriga dos alemães) sempre está tocando alguma coisa frenética com letras que só podem estar falando sobre amores proibidos.

***

Perdida

Tenho lembrado muito aqui de um disco chamado Let's Get Lost. Quando eu tinha 14 ou 15 anos significou muita coisa pra mim. Mesmo agora, quando o disco de Chet Baker é adotado em lounges cheios de alemães vestindo camisas floridas com calças de veludo e tênis All Star, o significado do disco ainda não se esvaziou pra mim, nem se transformou noutra coisa. Não se transformou na idéia vaga de alemães modernosos ouvindo Chet Baker num lounge de restaurante.

Vigiando a prateleira da única loja de discos da Ilha (além do supermercado, que vendia trilhas sonoras de novelas e greatest hits diversos), eu tinha duas opções em mente e umas notas de... Cruzados Novos? Acho que sim. Só dava pra levar um disco - ou era uma coletânea do Frank Zappa ou o Let's Get Lost do Chet Baker. Sabia tanto sobre o guitarrista quanto sobre o trumpetista: só o que havia lido por acaso em alguma Discoteca Básica da revista Bizz, ou nota de (re)lançamento no Rio Fanzine do jornal O Globo. Nunca tinha ouvido nem um nem outro. Naqueles tempos não havia Soulseek, Torrents, eMule nem LastFM, nenhuma dessas molezinhas em que caçamos música de graça na internet. Para conhecer um disco, rádio e amigos eram o caminho. Em se tratando de rádio, Zappa e Chet não eram assíduos no dial carioca. Nem em parte alguma. Algum amigo poderia gravar uma fita. Mas minha melhor amiga estava apaixonada por um rapaz de Goiânia que só ouvia sertanejo, e os outros estavam interessados nas coletâneas de greatest hits vendidas no supermercado. Então não tinha jogo: precisava comprar. Depois de muito sofrer com a dúvida, retirei o bolachão do Chet da prateleira e fui até o vendedor. Era o único Chet da loja, era o único Chet de toda a imensidão da Ilha do Governador. Sempre achei que seria outra pessoa se eu tivesse escolhido Frank Zappa. Toco guitarra, muito mal, punkrockamente mal, só porque parecia ser mais fácil de aprender que o trumpete. E a voz de Chet Baker não se aprende, aquele jeito de cantar quase morrendo, mas sem se descabelar.

Tenho lembrado do disco pela relação óbvia que o titulo tem com minha condição de estreante na rede ferroviária da Europa: vamos nos perder. Como não escuto quase nada que posso reconhecer na língua falada pela maioria das pessoas aqui (turco e alemão), minha cabeça fica repetindo sem motivo frases que compreendo, mesmo em inglês: Let's get lost.

E de fato me perco. Condição constante, todos os dias. Lembro do discão também por causa dos lounges em que essa gente lagarteia, Chet tá sempre no playlist. E não há choque cultural possível entre um estrangeiro e um berlinense, se o local do desencontro é um desses bares que, frescamente, em qualquer lugar do mundo, são chamados de lounge. É uma situação, aliás, que pede o uso de ao menos mais uma palavra estrangeira afrescalhada. O habitue berlinense não se choca contra/com nada: ele prefere desviar. No espectro oposto, os panques (daqui em diante eles passam a ser panques, ok?) das estações de metrô querem conversar a todo custo. Não compreendo qual o gancho dos diálogos que me propõem quando passo, mas pelo tom imagino que devem ser relacionados a alguma parte da anatomia humana, a trocados para comprar cerveja, ou a drogas. Todos têm um cachorro, pois recebem cerca de 400 euros ao mês para cuidar (mal) dos bichos. O panque mais comum aqui não é o sujeito que toca guitarra numa banda cover de Green Day. O tipo mais comum pode até cheirar mal e tira coisas dos bolsos das pessoas em ônibus e trens, segundo me alertam alguns cidadãos menos nonchalant dispostos a tirar a boca da garrafa para conversar em inglês. Pena dos cães, sempre obrigados a viver com gente nitidamente mais irracional que eles.

Perdida na estação Warschauer, pensei ter ouvido um "Bah". Dei as costas imediatamente para a direção de onde tinha vindo aquele som e fiquei encarando os trilhos de trens lá embaixo, sem conseguir decidir se fazia frio, ou se pela primeira vez na semana estava quente. O tempo em Berlim nessa época do ano é maluco. Tirando os dias realmente frios - que para os berlinenses são dias de verão, algo entre 13 e 16 graus - é assim: sem casaco, arrepios; com casaco, calor. Não sabia qual dos trilhos levava a Friedrichstrasse. Friedrichstrasse, veja bem, não fica em Freidrichstein. Se ficasse, a estação de Warschauer, onde saltei do U-Bahn vindo de Görlitzer, seria a estação correta.


"Bah."

Será esse som, que escuto de novo atrás de mim, uma entre a quase totalidade de expressões em alemão - excetuando "guten morgen", "guten aben", "bitte" e "ëin grosse bier" - que desconheço?

Ou meu subconsciente é mais sacana que o do Prata e, para fazer com que eu me sinta em casa, me manda alucinações auditivas, do tipo mais comum na esquizofrenia, e ainda por cima em gauchês?

Me sinto em casa ouvindo gauchês, apesar de ser carioca, porque tenho bastantes amigos de Porto Alegre. Mas... "bah"?! Aqui já é demais.

E então ao "Bah" seguiu-se um "Tchê". Dessa vez virei para trás decidida a estilhaçar a alucinação. Parece piada de gaúcho, mas lá estava um, tomando chimarrão e tudo, atrás do balcão de uma barraquinha de café da plataforma de Warschauer. Um não, dois gaúchos, e mais um carioca de Jacarepaguá. Interrompi seu debate sobre uma manchete de jornal a respeito um idiota que havia dado um empurrão de brincadeirinha num amigo, numa estação de trem, fazendo com que o cara caísse nos trilhos.

"Bah, guria, que fazes aqui?".

Felipe, o da barraca, Ricardo e Vinícius me ajudaram a tomar o trem certo e ainda supriram um pouco da minha carência de português. Ou melhor, carência de falar mesmo, pô. E me deram uma dica valiosa. Não mais caminhar à noite sozinha por Warschauer, como fiz no sábado passado, em busca do clube Berghain. É área de careca. "Você é loira e branquela, até que engana". Mas se eu abrir a boca e sair meu "guten abend"*, já era? "Não que eles ataquem assim, do nada..." "Ah, que é isso, cara, eles são sem noção, atacam qualquer um que não seja daqui." De qualquer maneira, parece um mau negócio caminhar sozinha por Warschauer ou qualquer área aonde os carecas gostem de desfilar suas botas de exército pretas com cadarços brancos (alguns portam bigodinhos loiros).

*Obs.: qualquer coisa que eu digo em alemão soa proposital e remotamente como Peter Sellers falando inglês com sotaque de francês na pele do Inspetor Closeau. Não vou fazer amigos assim mas é mais divertido pra mim desse jeito.

Em Mitte, onde fica Friedrichstrasse, eu vi as lojas de que falam os guias para turistas e vi uma galeria de lojas de departamentos multimarcas internacional, Kaulhof, que, construída há um ano, é o orgulho de Alexanderplatz. Mas, como me falta o gene feminino que permite que as mulheres passem muito mais tempo (dias) dentro de shoppings que os homens, não me empolga escrever sobre isso agora. São lojas, vendem coisas caras. Tschüss pra elas, então. Mas vale dizer que são menos exageradas, no sentido "The Nanny" da Macy's de Nova York. As galerias também parecem menos bregas. Berlim oferece a opção "menos neon e dourado, por favor", mesmo quando o assunto são esses frufrus de moda e perfumaria. Na Macy's, eu entrei uma vez pra ir ao banheiro. Nos quase seis meses em que morei na Maçã, nunca mais voltei no lojão. É perturbador. Muita luz, muito produto igual (mas "diferente", sabe?), muita embalagem dourada e muita mulher junta. Um bar gay em Schöneberg tem mais testosterona que a Macy's. Não dá. Em Berlim, talvez pelo passado recente de extrema dureza - perdoem-me mais um comentário digressivo sobre a suposta herança psicológica da Guerra Fria, mas essas associações são um vício pra mim, assim como tentar falar alemão com sotaque de francês falando inglês do Closeau -, eles são menos espalhafatosos.

Como eu disse antes, a cidade range. Não dá grandes solos de guitarra, canta e sopra com voz de quem morre da overdose de passado.