amores expresos, blog da CECÍLIA

Tuesday, April 24, 2007

BERLIM - Perdida

[faster pussycat] Em frente à Galeria Kaufhof, em Alexanderplatz, os punks colocam seus cachorros na água do chafariz. Está frio e os bichos latem sem parar, incitados pelos donos a se atacar, sacodem a água do pêlo seboso e molham os turistas que estão sentados à beira do chafariz. Paciência. A excessiva preocupação dos alemães com o meio ambiente não passa pelos animais. Quem tem cachorro ganha uma grana por mês para manter o bicho (e bebe e/ou fuma e/ou pica essa grana). Mais sobre isso abaixo.

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Pois então, a mania anal-retentiva de proteção à natureza dos berlinenses. Preciso tirar um dia inteiro só para arrumar meu lixo. É algo complicado, que exige certa dose de atenção. Todos os prédios têm latas de lixo separadas para tipos diferentes de detritos. Até aí tudo certo. Mas são SEIS (6), meia dúzia de latões de cores diferentes para lixos diferentes, pareados no quintal. Não entendo o que dizem os rótulos dos latões, mas sei que devo colocar vidros de produtos como maionese em um deles; garrafas noutro; plástico separado (no latão verde, esse eu descobri), papel separado; pilhas e bateria noutra lata; restos de comida na lata que tem muma cenourinha desenhada na frente. As latas vivem vazias. Parece que alguém recolhe o lixo diariamente, então não tenho base de comparação. Espio para dentro de um latão para descobrir que tipo de lixo se esconde nele e o encontro vazio.

Vou descer com o lixo e um dicionário, para decifrar as outras latas. Algo me diz que, se eu colocar uma embalagem na lata errada, eles vêm atrás de mim.

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Também vou arranjar um rádio a pilha na loja do turco de Oranientrasse, para ouvir a rádio "deles", que só toca música oriental histérica. Quando paro no Döner Berlim, em Kotbusser Tor (uma das dezenas de lanchonetes de comida especificamente turca, que vêm tomando o lugar do currywurst na barriga dos alemães) sempre está tocando alguma coisa frenética com letras que só podem estar falando sobre amores proibidos.

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Perdida

Tenho lembrado muito aqui de um disco chamado Let's Get Lost. Quando eu tinha 14 ou 15 anos significou muita coisa pra mim. Mesmo agora, quando o disco de Chet Baker é adotado em lounges cheios de alemães vestindo camisas floridas com calças de veludo e tênis All Star, o significado do disco ainda não se esvaziou pra mim, nem se transformou noutra coisa. Não se transformou na idéia vaga de alemães modernosos ouvindo Chet Baker num lounge de restaurante.

Vigiando a prateleira da única loja de discos da Ilha (além do supermercado, que vendia trilhas sonoras de novelas e greatest hits diversos), eu tinha duas opções em mente e umas notas de... Cruzados Novos? Acho que sim. Só dava pra levar um disco - ou era uma coletânea do Frank Zappa ou o Let's Get Lost do Chet Baker. Sabia tanto sobre o guitarrista quanto sobre o trumpetista: só o que havia lido por acaso em alguma Discoteca Básica da revista Bizz, ou nota de (re)lançamento no Rio Fanzine do jornal O Globo. Nunca tinha ouvido nem um nem outro. Naqueles tempos não havia Soulseek, Torrents, eMule nem LastFM, nenhuma dessas molezinhas em que caçamos música de graça na internet. Para conhecer um disco, rádio e amigos eram o caminho. Em se tratando de rádio, Zappa e Chet não eram assíduos no dial carioca. Nem em parte alguma. Algum amigo poderia gravar uma fita. Mas minha melhor amiga estava apaixonada por um rapaz de Goiânia que só ouvia sertanejo, e os outros estavam interessados nas coletâneas de greatest hits vendidas no supermercado. Então não tinha jogo: precisava comprar. Depois de muito sofrer com a dúvida, retirei o bolachão do Chet da prateleira e fui até o vendedor. Era o único Chet da loja, era o único Chet de toda a imensidão da Ilha do Governador. Sempre achei que seria outra pessoa se eu tivesse escolhido Frank Zappa. Toco guitarra, muito mal, punkrockamente mal, só porque parecia ser mais fácil de aprender que o trumpete. E a voz de Chet Baker não se aprende, aquele jeito de cantar quase morrendo, mas sem se descabelar.

Tenho lembrado do disco pela relação óbvia que o titulo tem com minha condição de estreante na rede ferroviária da Europa: vamos nos perder. Como não escuto quase nada que posso reconhecer na língua falada pela maioria das pessoas aqui (turco e alemão), minha cabeça fica repetindo sem motivo frases que compreendo, mesmo em inglês: Let's get lost.

E de fato me perco. Condição constante, todos os dias. Lembro do discão também por causa dos lounges em que essa gente lagarteia, Chet tá sempre no playlist. E não há choque cultural possível entre um estrangeiro e um berlinense, se o local do desencontro é um desses bares que, frescamente, em qualquer lugar do mundo, são chamados de lounge. É uma situação, aliás, que pede o uso de ao menos mais uma palavra estrangeira afrescalhada. O habitue berlinense não se choca contra/com nada: ele prefere desviar. No espectro oposto, os panques (daqui em diante eles passam a ser panques, ok?) das estações de metrô querem conversar a todo custo. Não compreendo qual o gancho dos diálogos que me propõem quando passo, mas pelo tom imagino que devem ser relacionados a alguma parte da anatomia humana, a trocados para comprar cerveja, ou a drogas. Todos têm um cachorro, pois recebem cerca de 400 euros ao mês para cuidar (mal) dos bichos. O panque mais comum aqui não é o sujeito que toca guitarra numa banda cover de Green Day. O tipo mais comum pode até cheirar mal e tira coisas dos bolsos das pessoas em ônibus e trens, segundo me alertam alguns cidadãos menos nonchalant dispostos a tirar a boca da garrafa para conversar em inglês. Pena dos cães, sempre obrigados a viver com gente nitidamente mais irracional que eles.

Perdida na estação Warschauer, pensei ter ouvido um "Bah". Dei as costas imediatamente para a direção de onde tinha vindo aquele som e fiquei encarando os trilhos de trens lá embaixo, sem conseguir decidir se fazia frio, ou se pela primeira vez na semana estava quente. O tempo em Berlim nessa época do ano é maluco. Tirando os dias realmente frios - que para os berlinenses são dias de verão, algo entre 13 e 16 graus - é assim: sem casaco, arrepios; com casaco, calor. Não sabia qual dos trilhos levava a Friedrichstrasse. Friedrichstrasse, veja bem, não fica em Freidrichstein. Se ficasse, a estação de Warschauer, onde saltei do U-Bahn vindo de Görlitzer, seria a estação correta.


"Bah."

Será esse som, que escuto de novo atrás de mim, uma entre a quase totalidade de expressões em alemão - excetuando "guten morgen", "guten aben", "bitte" e "ëin grosse bier" - que desconheço?

Ou meu subconsciente é mais sacana que o do Prata e, para fazer com que eu me sinta em casa, me manda alucinações auditivas, do tipo mais comum na esquizofrenia, e ainda por cima em gauchês?

Me sinto em casa ouvindo gauchês, apesar de ser carioca, porque tenho bastantes amigos de Porto Alegre. Mas... "bah"?! Aqui já é demais.

E então ao "Bah" seguiu-se um "Tchê". Dessa vez virei para trás decidida a estilhaçar a alucinação. Parece piada de gaúcho, mas lá estava um, tomando chimarrão e tudo, atrás do balcão de uma barraquinha de café da plataforma de Warschauer. Um não, dois gaúchos, e mais um carioca de Jacarepaguá. Interrompi seu debate sobre uma manchete de jornal a respeito um idiota que havia dado um empurrão de brincadeirinha num amigo, numa estação de trem, fazendo com que o cara caísse nos trilhos.

"Bah, guria, que fazes aqui?".

Felipe, o da barraca, Ricardo e Vinícius me ajudaram a tomar o trem certo e ainda supriram um pouco da minha carência de português. Ou melhor, carência de falar mesmo, pô. E me deram uma dica valiosa. Não mais caminhar à noite sozinha por Warschauer, como fiz no sábado passado, em busca do clube Berghain. É área de careca. "Você é loira e branquela, até que engana". Mas se eu abrir a boca e sair meu "guten abend"*, já era? "Não que eles ataquem assim, do nada..." "Ah, que é isso, cara, eles são sem noção, atacam qualquer um que não seja daqui." De qualquer maneira, parece um mau negócio caminhar sozinha por Warschauer ou qualquer área aonde os carecas gostem de desfilar suas botas de exército pretas com cadarços brancos (alguns portam bigodinhos loiros).

*Obs.: qualquer coisa que eu digo em alemão soa proposital e remotamente como Peter Sellers falando inglês com sotaque de francês na pele do Inspetor Closeau. Não vou fazer amigos assim mas é mais divertido pra mim desse jeito.

Em Mitte, onde fica Friedrichstrasse, eu vi as lojas de que falam os guias para turistas e vi uma galeria de lojas de departamentos multimarcas internacional, Kaulhof, que, construída há um ano, é o orgulho de Alexanderplatz. Mas, como me falta o gene feminino que permite que as mulheres passem muito mais tempo (dias) dentro de shoppings que os homens, não me empolga escrever sobre isso agora. São lojas, vendem coisas caras. Tschüss pra elas, então. Mas vale dizer que são menos exageradas, no sentido "The Nanny" da Macy's de Nova York. As galerias também parecem menos bregas. Berlim oferece a opção "menos neon e dourado, por favor", mesmo quando o assunto são esses frufrus de moda e perfumaria. Na Macy's, eu entrei uma vez pra ir ao banheiro. Nos quase seis meses em que morei na Maçã, nunca mais voltei no lojão. É perturbador. Muita luz, muito produto igual (mas "diferente", sabe?), muita embalagem dourada e muita mulher junta. Um bar gay em Schöneberg tem mais testosterona que a Macy's. Não dá. Em Berlim, talvez pelo passado recente de extrema dureza - perdoem-me mais um comentário digressivo sobre a suposta herança psicológica da Guerra Fria, mas essas associações são um vício pra mim, assim como tentar falar alemão com sotaque de francês falando inglês do Closeau -, eles são menos espalhafatosos.

Como eu disse antes, a cidade range. Não dá grandes solos de guitarra, canta e sopra com voz de quem morre da overdose de passado.