amores expresos, blog da CECÍLIA

Wednesday, May 9, 2007

Amar é: acreditar no comunismo em 2007

Eu estava voltando pra casa agora à noite quando reparei nuns cartazes novos, que não tinha visto ontem: falavam da manifestação que aconteceria a partir das 21h na Heinrich Platz, mesmo ponto de encontro para a bagunça anti-capitalista que ocorreu em 30 de abril. Tinha andado o dia inteiro e a última coisa que eu queria era caminhar mais até Warschauer, onde foi parar a passeata naquela semana.


Estes comunistas são mais pobres que os da semana passada,
que tinham até poster colorido com a foto da Britney Spears.

Fui pra casa, sô, que passeata o quê. Roupa de dormir, chinelos, tudo quentinho. Computador ligado pra mandar outro post que não era bem este. E aí escuto a passeata chegar a minha rua. Escuto umas bombinhas - são bombinhas mesmo, de São João. (Este é o mal de lhes faltar a nossa Festa Junina. Se fizessem Festa Junina em Berlim não seriam comunistas, teriam mais o que fazer entre barraquinhas de quentão e salsichão, pular fogueira iá-iá de carros incendiados; teriam outras ocupações esses alemães que contraditoriamente usam Adidas e querem eliminar o capitalismo da face da Terra). Meti um casacão por cima da roupa de dormir, calcei as botas e desci.

O bom de andar com essa galera do comunismo é que eles realmente não se importam se você já amarrou o cabelo pra ir pra cama, se está de pijama, o esmalte descascado nas unhas. Eles são comunistas, sacou?, apesar dos Adidas.

Desemboco na calçada do prédio e já estou no meio da muvuca. Uma menina puxa meu braço e encaixa no dela. Todos caminham assim, com os braços entrelaçados. Eu já estava de penetra, não quis também ser diferente. Ela tenta falar comigo em alemão e eu confesso logo que a alemã (no sentido funk-carioca da coisa) sou eu. Ganho uma guia para a passeata. Melanie é assistente social e mora há apenas um mês em Berlim, vinda de uma cidadezinha do sul que a zoeira da multidão não me deixa compreender o nome. Pelo outro braço ela prende um amigo de infância da tal cidadezinha natal, Daniel, que veio visitar.

Daniel foi contando como era sua vida no interior, que também estranhava os hábitos dos berlinenses, "como beber cerveja na rua de manhã." A gritaria continuava, nosso papo estava animado. Já não me importava mais se íamos atravessar como na semana anterior a Oberbaumbrücke no frio - tem chovido aqui desde segunda-feira -, e voltar a pé já que o U-Bahn pára de funcionar cedo durante a semana.

Cedo para os padrões dessas passeatas, que costumam passar de meia-noite, quando elas rendem.


Luz, câmera, comunistas



Para os manifestantes, a coisa só rende
quando dá merda entre eles e os policiais.


Cara-pintada


Esse saco de lixo é uma fogueira mal-sucedida...


... Mas a polícia comparece pra apagar o fogo inexistente.


Quando chegamos na Schlesische Strasse é que o jogo de provocar-o-guarda começa a pegar. Na outra passeata isso aconteceu em cima da ponte. Nesta eles tiveram misericórdia e pararam antes de termos andado até lá. Os manifestantes jogam garrafas de cerveja vazias no chão, os policiais vão atrás. E quando vão atrás, grupos de manifestantes se destacam de suas correntes e fazem um círculo em torno dos policiais. Mais policiais vêm para o mesmo ponto da passeata. Vermelho, preto e verde, vermelho, preto e verde, vermelho, preto e verde.

Comunismo aqui é igual o Flamengo, não contei? É rubro-negro. Embora eu tenha visto uma bandeira cor-de-rosa com a estrela preta no meio. Verdes são os guardas. E tá muito na moda a camisa do Che.

Os rubro-negros desandam a esculachar os verdes. Alguém atira outra garrafa na direção da polizei. O vidro se espatifa no chão, bem perto de um dos policiais, que saem da fila indiana das calçadas em direção ao local de onde veio a garrafa. Punks caem na gargalhada. O povo zoa os policiais e canta algo como "porcos polícias de merda". Os fotógrafos fazem a festa, os cinegrafistas correm de um lado para o outro. Todos estão felizes em Berlim.