amores expresos, blog da CECÍLIA

Thursday, November 8, 2007

Renata

volto a escrever do mesmo jeito que escrevia em berlim. na mesma máquina, que não usava... bem, desde berlim. isso foi no começo do ano. mal posso aceitar, tanto tempo. fui pra lá insegura, voltei insegura. precisei lançar meu primeiro livro pra superar umas merdas e encarar outras de frente. e ver que era bobagem também. falta de gravidade. apareceu guindaste dos bons pra me ajudar.

blog é ruim por causa disso. sempre existirá uma madrugada ao lado de duas cervejas e uma tela conectada à internet. e a gente escreve. a gente fala como se vocês fossem nossos amigos. eu prefiro achar que são.

o bar embaixo do meu prédio, que me sobe inteiro com vozes e cheiro de fritura e música de merda até o meio da madrugada não é meu amigo. já joguei água neles e jogo de novo. lei que não se cumpre. me emputeço. cheia de trabalho pra entregar. faço tudo e entrego no prazo, porque senão não se paga os bandidos: contador, dentista.

o livro de berlim não é trabalho.

descolei um sítio. um amigo meu disse: é teu. fica lá. falta a chefe dizer que eu posso ir. que já fiz meu trabalho direito. que posso trabalhar de longe e de madrugada, como fiz em berlim, pra entrar mais no meu livro. ela diz sim, semana que vem tô lá.

visitei o lugar na semana passada. muita gente junta, não escrevi uma linha. gente engraçada. coaram café numa meia. uma meia esportiva masculina. por falta de coador apropriado. mas era uma meia limpa. creio. não bebi do café, mas os que precisavam dele para dirigir de volta até são paulo não reclamaram. até por não saberem que se tratava de café coado em meia de marmanjo.

não me venha com higiene. já trabalhei em restaurante. sei o que acontece numa cozinha. caros, baratos, não importa: sempre pegam na sua comida com as mãos sujas.

nem te conto quem lava os copos. nem como.

tive um piripaque de lançamento de livro de estréia, há uns dois meses. qualquer peteleco era vendaval. saí melhor dessa do que entrei: eu nunca tinha olhado aquelas mãos direito, as do guindaste. agora elas me conhecem bem, devo a elas mais que os cumprimentos formais que trocávamos antes.

já viram esses sites que dão significados aos nomes? são a versão online daquelas revistinhas baratas que qualquer banca de jornal tem, para ajudar os pais a escolherem nomes de filhos que "signifiquem" alguma coisa, que talvez atribuam às crianças algo de especial. ou lhes confiram qualquer tipo de força. como "RENASCIMENTO". essas coisas de que qualquer colega cínico contemporâneo não pensa duas vezes antes de fazer graça.

agora saíram as resenhas bacanas sobre o livro, leitor me escreve e diz que recomenda por aí "lugares que não conheço, pessoas que nunca vi". uma professora me escreveu dizendo que vai adotar o romance no colégio. gostei dessa conversa.

volto a escrever na mesma máquina que escrevia em berlim. a outra, a "de casa", teve um problema qualquer. mistifico e acho que é porque essa história tinha que ser escrita neste notebook.

eu preferia não ser tão franca num blog. mas, francamente, pudores de internet não significam mais nada. existem outras coisas mais bem guardadas. e que devem ficar assim, até que saiam os livros.