amores expresos, blog da CECÍLIA

Monday, October 8, 2007

PanAmericana

Aparecem pela minha casa uns bloquinhos finos, de papel branco, pautado, marca: PanAmericana. A capa estampa meio termo entre vaca malhada e dálmata. Pequenos mesmo: 100x70. Milímetros. Irresistíveis, combinam com toda sorte de vício disfarçado sob o genérico termo "pesquisa". Três livros que leio e deles anoto nos caderninhos minúsculos. A regra de utilização dos caderninhos é que cada entrada tenha no máximo cinco linhas. Se for algo muito excitante, é concedida à notação uma página INTEIRA de 100x70mm.

Minha caligrafia vem se amiudando com o treino nos caderninhos. Logo, só eu vou entender o que escrevo neles. Deve ser isso que xingam de obscurantismo infantil.

A "pesquisa" é toda codificada, como o diário de Annie Lister em inglês do século 21, o que teria sido mais difícil de decodificar caso meus bloquinhos fossem encontrados em fins de 1800 dentro das calças um tanto folgadas de Lady Lister ou sob a cama de uma de suas amantes, Marianne. Aquele marido de Marianne, vou te dizer. Um bovino (bovariano) sem testículos. Annie teria mais chance - e teve. Lister não foi a primeira sapata moderna, mas a primeira menine moderna a escrever. Há quilômetros de diferença, como Berlim insiste em evidenciar, entre as duas coisas. Um dos milestones que marcam essa distância é estabelecido pelo banheiro público. Pense, McFly.

Um(a) menine entra no banheiro público feminino. As mesmas características que podem fazer com que seja espancada no banheiro masculino podem levar com que seja expulsa do banheiro feminino pela maldade das mulheres que acham que se trata de um tipo de mulher cujo exterior não corresponde ao sexo com que nasceu. The "urinary segregation", como descreve Lacan (now I´m just messing with ya. diga se apanhei-te, cavaco, e te direi quem és).

Dito isto, troco o diário por um romance inútil do Gore Vidal em que o fanfarrão Harold acusa o idealista Peter (esta vai pro meus bros reducionistas, yo):

- Diletante.

Delectare, deleitar. Os caderninhos. Cada nota no máximo cinco linhas.